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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Relato dos meu abortos - Final

Quando tive meu primeiro ciclo após o aborto senti uma alegria triste... Era como que o fechamento de um período de dor, o encerramento do luto. Claro que eu ainda ficaria triste, sentiria saudade e um vazio imenso, mas a vida voltava a acontecer aos poucos. Era a limpeza, o recomeço.

O problema é que a menstruação não acabava. Fui à minha médica, tomei remédios e nada. Até que tive que fazer uma videohisteroscopia cirúrgica no carnaval para descobrir o que, afinal, estava acontecendo. E foram retirados vários pólipos do meu útero.

Depois disto, tinha que ficar um tempo sem tentar, obviamente. Quando finalmente fui liberada, resolvi passar por uma médica especialista em fertilidade, indicada por uma amiga. Mesmo tendo passado por somente (?) um aborto ela me pediu diversos exames específicos, inclusive genéticos como cariótipo. Como eles demoram um pouco para sair, fui acompanhando pela internet cada um que era liberado e pesquisando no Dr. Google o que significava aquilo.

Somente um teve alterações mas, pelo que eu havia pesquisado (acho que foi a pesquisa mais mal feita que eu já fiz, descobriria depois), não era nada demais. Porém, ao voltar ao consultório, fui inteirada do assunto. Eu tenho uma alteração genética no MTHFR em homozigoze, doença chamada trombofilia. Isto significa que meu corpo forma pequenos trombos (coágulos) que dificultam a passagem de oxigênio e nutrientes para a placenta, o que prejudica o desenvolvimento do bebê. Segundo a médica, esta era a causa provável do meu primeiro aborto. O tratamento? Aplicações diárias de anticoagulante na barriga, intravenosa. O preço? Por volta de R$ 30,00 por injeção - isto mesmo, quase R$ 1.000 por mês - que o Estado tem que fornecer pelo programa de medicamentos de alto custo, mas que negaram para mim. Enfim, assunto para outro post.

Passado o choque inicial, ela me explica que terei que fazer coito programado, ou seja, controlar meus hormônios e minha ovulação a partir da menstruação, inclusive fazendo uso de indutores de ovulação por conta da minha SOP. Assim, eu saberia o dia exato da liberação dos óvulos para ter relações no momento certo.

Minha menstruação demorou tanto a descer que o tratamento foi sendo adiado. Quando finalmente veio, estávamos pensando em trocar de apartamento e, visto que minha gravidez teria que ser mais tranquila, resolvi adiar o início do acompanhamento.

Resumindo, algum tempo depois, em outubro, eu comecei a sentir alguns sintomas e tinha certeza que estava grávida. Por volta de 2 semanas depois da minha menstruação, meus seios ficaram extremamente inchados e doloridos, eu sentia muita sede e tinha cólicas leves. Considerando que meu período nunca foi menor do que 50 dias, só podia ser gravidez!

Adiei o teste por alguns dias, meu marido dizia: calma, você acabou de menstruar! - mas eu queria ter certeza logo para começar a aplicar o remédio. Até que no dia 28/10 fiz um teste de gravidez que ficou assim:

Segunda listrinha fraquinha
No dia seguinte, desesperada, busquei o pedido para o exame de sangue. À noite, fomos até o supermercado comprar algumas coisinhas saudáveis e eu atualizando o aplicativo do laboratório (hipocondríaca e ansiosa que tem aplicativo do laboratório no celular? Claro que sim não!) desesperadamente até que aparece: beta 120! Ficamos super felizes, mas meu fantasminha pessimista já começou a soprar no meu ouvido. Achei o valor muito baixo e, enquanto hubby passava as compras no caixa, já fui pesquisar valores de referência. Resolvi me conformar que estava muito no comecinho e que estava bom, nada de pânico.

Na terça-feira fui até a minha médica que confirmou que eu estava de 5 semanas e que eu não deveria me desesperar. Repetiria o exame na quarta e veríamos a evolução. Já fiquei também com um pedido de USG que eu deveria fazer somente na outra semana.

No entanto, eu realmente não estava confiante nesta gestação. Em nenhum momento fiquei tranquila, parecia até que alguma coisa ruim tinha que acontecer logo para que eu não precisasse mais me preocupar. Não sei explicar direito, mas não consegui curtir nada. Não sei se era um pressentimento ou somente o medo, mas o prognóstico não me parecia nada bom.

Chegou a quarta-feira e o beta, que deveria ter dobrado, foi somente para 192 - bom, está crescendo, pelo menos - pensei, tentando me acalmar. Chegou o feriado de finados e minha irmã e seu namorado vieram nos visitar. Chegaram na sexta-feira à tarde e saímos para que eles comessem alguma coisa. Tomei um suco e, um pouco depois, pedi para irmos embora. Minha barriga estava muito inchada e minha calça começava a apertar, o que eu achei estranho.

À noite, saímos para jantar em um restaurante italiano e eu tomei muito suco de uva natural. No dia seguinte (e menos de uma semana depois que descobri a gravidez), quando fui fazer xixi, lá estava, no papel: uma gotinha de sangue. Meu marido até tentou me acalmar, dizendo que era do suco, mas eu não me convencia. Seguimos para o hospital e lá foi confirmado. Meu beta havia caído para 70 e eu estava tendo outro aborto.

Chorei demais e um médico muito sem noção tentou me consolar, enquanto eu, deitada só de camiseta na maca e perdendo meu filho, tinha que ouvir: "Calma, a gente sempre acha que o nosso problema é maior do que o dos outros, né? Mas vai lá na ala de alto risco para você ver o que é sofrer".

No domingo, exatamente uma semana depois das duas listrinhas aparecerem no teste, senti as temidas e pavorosas dores do aborto e lá se foi meu sonho novamente. Desta vez, o mais difícil foi ver o sofrimento do meu amor, que se abalou demais, como eu nunca havia visto.

Mas hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou, e nós somos brasileiros e não desistimos nunca! Obrigada por lerem até aqui e vamos rumo a um novo capítulo!