segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Relato dos meus abortos - Parte II

Continuando...

Antes de engravidar, eu já tinha na cabeça a ideia de não sair compartilhando a gravidez por aí antes dos 3 meses. Eu sempre tive medo de não conseguir engravidar, então essa já era uma conquista muito grande (quando vi o resultado positivo, fiquei boba. Eu realmente achava que não era possível ter este resultado em um teste - pelo menos, não em um teste meu). Assim, fiquei quietinha, enquanto meu querido marido espalhava a notícia aos quatro cantos do mundo - ou, pelo menos, do Brasil.

Tudo corria bem e, enfim, chega o dia da tão esperada USG. Como eu não tinha noção de quantas semanas e eu estava e o Beta não tinha uma tabela de valores, seria quando eu descobriria meu tempo de gestação. Meu marido foi comigo e, de repente, lá estava a imagem mais linda do mundo:

Saco gestacional com embrião beeeem pequenininho
Tá, não dava para ver muita coisa ainda, mas já foi o suficiente para me sentir a mulher mais sortuda e feliz da face da Terra - e um cadinho mais tranquila, também. É, o medo já me assolava nesta época (acho que assola toda grávida, né?), mas eu nem imaginava ainda a dimensão que ele poderia tomar. Lá estava o saco gestacional, a vesícula vitelínica, tudo no seu devido lugar. Nada aparentava estar errado, ou pelo menos, não me disseram. De acordo com as medidas, eu estava de 5 semanas e 4 dias.

Depois desta constatação, comecei a contar sobre a gestação para algumas, pouquíssimas, pessoas. O tempo passava e tudo estava bem. Mudei minha alimentação radicalmente (viciada em junk food que sou), tentei estabelecer uma rotina mais tranquila, mas continuei trabalhando normalmente. Baixei vários aplicativos no meu celular que diziam diariamente como estava a evolução do meu bebê, me cadastrei em outras várias newsletters sobre gravidez e até conversava e colocava músicas para ele(a) ouvir. Compramos, eu e meu marido, a primeira roupinha para o(a) bebê e ele(a) até ganhou um presente da minha irmã e futura madrinha (não pensem que estou louca, ainda não tinha chamado ninguém para padrinho - minha irmã é que já decidiu que será ela! Rs!).

Tudo corria bem até que, quando estava com quase 8 semanas de gestação, algo aconteceu. Não sei explicar muito bem, até porque não foi nada concreto, foi uma sensação. Parecia que eu tinha perdido o contato com o bebê, e isto me deixava muito mal. Fazer coisas que antes me davam prazer, pois eu sabia que eram em prol do meu tiquinho de gente, começaram a ficar mais difíceis. Comer legumes e outros alimentos saudáveis, por exemplo, passaram a parecer uma tortura. Até comentei isto com a Mari, mas ela não achou nada demais, era somente uma fase.

Nesta época, eu já tinha um pedido de USG, mas minha médica havia pedido para que eu esperasse mais uma semana para fazê-lo. Não, não dava. Eu estava nervosa e preocupada demais e, para piorar, vi um programa na TV de uma mulher que fez o exame quando estava nas mesmas 8 semanas que eu e não conseguiu ouvir o coração, perdendo o bebê em seguida. Pronto, o dano já estava feito: eu precisava confirmar o que era aquele peso tão grande que estava me rondando.

Marquei a USG para um domingo, data em que completaria 8 semanas. Até que estava tranquila, mas aquele fantasma me assombrava lá no fundinho. Ansiosa que só eu, até perguntei para a atendente sobre o exame de sexagem fetal e resolvi que decidiria se faria ou não após o ultrassom. Enquanto isto , fiquei admirando todas as grávidas e seus barrigões que esperavam no laboratório.

Enfim, chega minha vez. A médica, se confundindo com a DUM que eu havia chutado à atendente (lembra que eu não tinha a data certa?), colocou o aparelho na minha barriga e se assustou: não era possível identificar nada. Expliquei para ela o que havia ocorrido e, confusão resolvida, ela iniciou o exame transvaginal. 

A partir daí, as coisas ficam mais confusas na minha memória. Me lembro que, no começo, estávamos olhando felizes para a tela. De repente, alguma coisa chamou minha atenção e apertei a mão do meu marido com mais força, já prevendo o que viria a seguir. Acho que foi algum comentário da médica para a assistente. E é aí que ela decreta: "É pais, infelizmente não tem batimento...". Meu mundo caiu e as lágrimas também. Soluçava desesperadamente, mesmo com o aparelho ainda lá dentro, na vã esperança da médica de conseguir captar mais alguma coisa no meu útero. Até que ela me pede: "Calma, tentar ficar parada um pouquinho. Olha ali na tela, tá vendo pulsar bem de levinho? Tá bem fraquinho, não dá para captar no som, mas dá para ver." Eu até vi, mas não me convenci. Saí, isolada naquelas salinhas destinadas às mamães que não tem boas notícias - afinal, nenhuma grávida feliz com seu bebê serelepe na barriga precisa ver esta cena, né? Não me entendam mal, eu concordo que este é o melhor procedimento a ser tomado. Mas, na hora, só me senti como o patinho feio, o vírus infame que tem que ficar longe para não contaminar o mundo cor de rosa lá fora.

A orientação era repetir o exame dali a alguns dias. No dia seguinte, tive um corrimento rosado que permaneceu a semana toda, às vezes mais intenso, às vezes menos. O resto é previsível: fiquei de repouso a semana toda (e foi aí que a maioria dos meus colegas de trabalho ficaram sabendo a respeito da gestação), refiz alguns exames de sangue para verificar a evolução dos meus hormônios (que realmente não estavam como deveriam) e, na sexta-feira seguinte, 05/08/2011, a pior semana da minha vida culminou nesta constatação trágica. Meu bebê realmente não tinha batimentos e eu estava abortando.

Falei com a minha médica que resolveu esperar que eu abortasse espontaneamente, e era isso que eu queria, também. No domingo, comecei a perder muito sangue e ela nos orientou que fôssemos até o hospital, devido às fortes dores que eu sentia. Na verdade, fortes dores é um understatement. Eu sentia dores infernais, me contorcia na sala de espera, até resolverem me dar uma medicação. Neste exato momento, senti algo grande descendo e corri para o banheiro. Não sei se por sorte ou por azar, o que eu acho que era o saco gestacional caiu no vaso e correu para o fundo, de modo que não conseguir ver nada. Pode parecer loucura, mas hoje me arrependo. Gostaria de tê-lo segurado, olhado, sei lá. Sei que não iria conseguir identificar nada, mas a ideia do meu filho tão amado sendo descartado assim me perturba. Enfim, na hora  apertei a descarga e saí.

Ainda tive que tomar uma injeção (eu sou RH negativo e meu marido positivo, para dar mais emoção! Rs!) e fazer uma USG para constatar se estava tudo limpinho - e o médico foi bem simpático enfático nisto "Não tem mais nada aqui".

E assim foi o meu primeiro aborto. Fiquei totalmente arrasada, por muito tempo. Meu marido tentava ser forte, mas quando desabava eu o dava apoio. Acho que esta é uma das questões que mais me abalam: ver aquele homem tão forte, bom, generoso e gentil passar por uma situação destas. Ele fez de tudo: foi até Aparecida do Norte pedir por nós, buscou as famosas pílulas de Frei Galvão que eu nem consegui terminar de tomar, rezou, orou, cuidou de mim... e nada. Fico com uma sensação de impotência e, principalmente, de não ser boa o suficiente, de ser a razão pelo nosso sofrimento. Pelo sofrimento dele, do amor da minha vida.

Quando voltei a trabalhar, duas semanas depois (meninas, toda mulher tem direito a licença* quando tem um aborto, viu? E para mim este tempo foi fundamental para tentar me refazer), eu não tinha voz. Nenhuma. E eu nunca, NUNCA fico rouca. Acho que era a minha maneira de me proteger, me manter para mim. Como já diria o sambista Reinaldo em Eu e a Dor:

"Tem dor que é pra gente carregar sozinho
E não dividir o pranto com ninguém
Por isso me deixa só nesse cantinho
Só eu sei pra minha dor o que convém"

*De acordo com o Ministério da Previdência, mulheres que sofreram aborto espontâneo com até 22 semanas de gestação têm direito a salário-maternidade de 2 semanas. A partir da 23ª semana de gestação, a mulher tem direito ao salário-maternidade completo, de 120 dias.

4 comentários:

  1. Oii querida! Eu tb sofri um aborto, neste ano, com 6 semanas, sei a dor que vc passou, mas vamos continuar tentando que uma hora vem nosso pacotinho né? to te seguindo!

    Beijos!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Oi Jacky! Muito obrigada pelo seu comentário e por seguir o blog, já estava achando que todas as visualizações de página eram minhas! Rs!

    Que pena que tenhamos nos conhecido por causa de acontecimentos tão tristes, mas com certeza eles nos darão mais força para continuar!

    Beijos

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  4. Tive um aborto, agora estou grávida de 29 semanas. Não consigo me apegar a esse bebê de agora e nem me desapegar do que morreu. Tenso.

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